CHAVE DE CADEIA 2 por natanael gomes de alencar

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Vê se baixa essa beretta,
por favor não se intrometa,
porque minha alma é livre
como a cauda de um cometa,
coisa inteira, coisa meia,
que é vazante e maré-cheia,
seja sangue ou seja a veia,
só se aproxime disposta
a ser chave de cadeia.

Vê se baixa essa beretta,
por favor vem, se intrometa,
porque minha alma é frágil
como bala de espoleta,
se eu morrer no fim do morro
pode crer que é coisa feita,
que é vingança de mulher
por excesso de "buceta",
ou traição de amigo
por despeito ou por falseta.

Vê se escreve na prancheta,
por favor me livre a treta,
porque tenho muita fé
no amor por ti - "beretta" -,
e se te beijo te como
com pimenta malagueta,
mas antes eu te mastigo
no bar de Dona Capeta.
Só se aproxime disposta
a matar-me a mamiletas.

RASGA MORTALHA inspirado em O CORVO por natanael gomes de alencar

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...  RASGA-MORTALHA inspirado em O CORVO
...Meia-noite? Tava louco co’ esse horário de verão.
Folheava um livro raro, letra barroca e fininha.
Meu corpo arruinado debruçava sobre a mesa.
“Ouvi o som do interfone?” Estiquei-me. Dor na espinha.
“Quem toca meu interfone, causando uma dor na espinha?
...Nada demais. Nonadinha.”

Foi no início de setembro. Meu aniversário, eu lembro.
Não paguei a luz. Velavam sombras várias na cozinha.
Queria o raiar do dia. Esta noite me soprava
- A leitura n’ ajudava – o nome de Amelinha
Q’ hoje ancora no impossível da memória...Amelinha !!!
Nada mais resta. Nadinha.

A cortina na vidraça balançava, para horror
Desta arritmia herdada, que ao peito roxo abespinha.
Ouço de novo o interfone por vagarosos segundos...
“É uma cliente atrasada??? A coroa e boa Zinha
Que gosta de rima à noite ??? Ela é uma vizinha
Afetiva e mais nadinha...”

Fiquei bem mais animado, passei a chave na porta :
“ 'Sinhó'...quer dizer, Madame, não repare a camisinha.
Estava morto de sono, e o interfone está tão tênue.
Extenuado, tonto, tenso, estava eu inda agorinha”.
Quando escancarei a porta  : toda a rua em breu, todinha !
Nada mais. Juro. Nadinha.

E tremeu-me o coração em descompasso acelerado :
“ Mas que breu tão pavoroso, de um vazio que sublinha
Espantos de dar artrose em pontes anoitecidas. ”
Grito no instante, alterado, o nome de Amelinha,
A minha voz ri sozinha. Nada do eco de Amelinha...
Não mais seu som! Mais nunquinha!


Logo ao reentrar em casa, co’a alma em prantos, a vidraça...
Vem um som mais forte, e outro, e caem minhas glicínias.
“Terei de ver de perto se há vidro solto ou velho encaixe.
Passar tempo neste intento é meta que me encaminha.
...Acho que é o vento que balança o vidro. M(eu), calminha.
Mais que isso não. Nadinha.”

Abro a vidraça e bem presto uma ave entra, esvoaça.
Suas asas derrubam tudo. Voam diversas peninhas.
Deve ter milhões de anos... “Caralho, a Rasga-Mortalha !”
Pousa de frente a meu quarto, num varal feito de linha.
E bem defronte da porta, numa linha bem retinha.
Temor causou-me? Na...aaaaiiiiii...di...nha...

Falei à Rasga-Mortalha com falsa voz de barítono:
“Embora você precise ser mais suave, corujinha,
E ter mais educação ao entrar no oco dos lares,
Me atrevo a interrogar-lhe, ó ave de ignomínia:
Que nome lhe dá o Inferno? (Suindara é na terrinha).”
- “Nunca mais.” E mais nadinha.

Quedei-me, boquiaberto, de ouvi-la falar de perto,
Matutei o horror incrível que lhe notei na falinha...
Escolheu a minha porta, pendurou-se em meu cordão...
E se eu quiser divulgar, dirão que bebi da vinha
De Baco diretamente, dirão que bebi da vinha...
Nunca mais bebo...ic...nadinha.

Encarei Suindara, esperei, ressonei, surtei e nada.
Deu àquele Nunca Mais o conteúdo que tinha.
Depois ficou lá, calada, nem balançou suas penas.
Disse a ela, em meu pensar: “sei que dessa porta minha
Partirá, qual sonho, amigos, fugidos da porta minha.”
“ - Nunca Mais!” – disse. " - Nunquinha."

Onde qu’aprendeu tal frase? Foi o pai que lhe ensinou ?
Deve tê-la ensinado muito agouro e formulinhas.
Não só de rasgar mortalha seu agouro se apresenta?
Deu-lhe seu papai irado bruxarias comezinhas,
Mas sua frase sem piedade não é arte comezinha...
Nunca mais nada é nadinha.

Encostei - me na poltrona de corino quebradiço,
E pensei sobre a razão do agouro dessa mesquinha,
Que fazia uivar caveiras de pavores renascidos.
Não me rasgou a mortalha, do alto dessa cordinha,
Mas me agourou som cortante sem sequer dar talhadinha.
“Nunca mais” - disse. E nadinha.

Revi o drama de Suindara quando vivia entre nós:
Amava o filho de um Conde, mas não amava sozinha.
Incestuosa, insana e sonsa, a esposa má desse Conde
Mandou matar Suindara, de Eliel bela filhinha.
Eliel, famoso bruxo que adorava sua Darinha...
Nunca mais amou nadinha.

Com estátua de coruja enfeitaram a sua cripta
Pois além de carpideira do povo era “fessorinha”.
Eliel fez um feitiço, quando da assassina soube.
À filha tornou coruja, com fúria qual das Eríneas,
Deu à Condessa mortalha, com a fúria das Eríneas...
Mais nada, nada, nadinha.

Depois disso, quanta morte anunciou neste mundão.
"Terá cansado de voar por toda a parte a carpinha?
Qual a razão pra aqui parar com seu olhar inflamado?
Será só para lembrar de eu nunca mais ver Amelinha,
Porque agora não terei mais sua boca molhadinha...
Nunca mais o amor ! Nadinha ! "
Senti em dantesca treva o premir de ossudo abraço,
A casa foi s’encolhendo, qual timorata rolinha,
Então, bradei:“Rasga – Mortalha, me joga logo no inferno !!!
Vejo ainda a morte cruenta de minha casta Amelinha;
Esquecerei o ataúde co’ corpo de Amelinha ?”
- “ Nunca mais” – disse. E nadinha...

“Ó enfeitiçada ave perdida, haverá um lenitivo
Que possa me ajudar? Responda-me, infame adivinha !
Tira-me as manchas de sangue, ó voz doida de chacrinha !
Pode mudar-me, a que eu saia desta casa esterquilínia,
Onde ensandeci de medo minha de ébano deusinha?”
Disse: - “ Nunca Mais. Nunquinha.”

“Poderei desenterrá-la co’ estas mãos impenitentes,
Pegar seu corpo, e pintá-lo como a de Poe Virgínia,
Pôr no instagram, twitter, face, que simula pra uns a vida,
E depois impulsionar o seu caixão frente à pracinha ?
Quanta vez nós lá rolamos, debaixo da palmeirinh... ”
- “ Nunquinha” – atalhou. “ Nunquinha”.

“Parta, agora, peste, diaba, deixe-me quieta a mortalha;
Tava bem feliz jogado neste sem suas garrinhas
Presas nesta frágil alma, fio de arremedo que encorpo.
Tire as garras desta vida, cuja sina jaz sozinha !
Saia já, bestial, e logo, pra esquecidos fins de linha !”
- " Nunca nonada mais, nadinha”.

A ave não fez mais gesto. Suas garras ainda espremem
O meu ser que é só tumulto. Penso imagens bem sanguíneas.
...Eis outra vez o interfone num contínuo tocar.
Mas resto paralisado, colado na poltroninha.
"...Sumirá acaso o sangue que esparramei de Amelinha?”
- “ Nunca mais” – falou. “ Nunquinha.”

DIA DIGNO por natanael gomes de alencar

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Um dia às vezes 
é um dia digno de noite.
Turvemos o lago.
Apesar do outdoor uivando,
um olhar verdadeiro é melhor,

mas você ainda pode
cantar como fosse neve
de sonho jamais descrito,
mordendo-se pra ter certeza.
Deixar os outros que ficam

com suas certezas algemadas,
sem saber o bom de tatear
as paredes da caverna
com sangue nas unhas
mas entenda que a caverna
é onde você se engana
e só é bom como ficção
e o sangue pode ser de groselha,
melhor, façamos um filme
das coisas que vemos,
das coisas que amamos,
e aparemos as unhas.
Não podemos nos entender
tão fácil. Turvemos o lago.


O GOLFINHO de natanael gomes de alencar

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- Vez em quando voltarei

para mais me lembrar
do quanto pode ser crime
o demasiado amar!
- E se eu estiver chorando
por estar desaparecendo
do tempo onde me arranchei
sem querer e depois querendo?
- Não deixarei de vir
nem que o mar seque
...quer dizer, se o mar secar
isso vai me impossibilitar,
mas, enquanto der,
e a senhora golfinho deixar...
E quando no ar me paralisar,
numa pirueta sem igual,
extremamente grato 
pelo belo gesto que fizeste 
ao me arpoar com ódio
e com misericórdia,
estenderei as feridas lisas,
que sangram todo dia,
aos raios de tua visão
e darei piruetas em volta
de teu grande coração.
E farei um mar 
de teu gesto de ódio
(próximo do amor
como todo ódio que se estabelece
até entre o espinho e a flor)

Encerrada abruptamente instituição que apoiava sobreviventes Yazidi vítimas do Daesh



O fecho da Yazda, que as autoridades curdas acusam de praticar vários delitos, deixa sem qualquer apoio mais de 1200 mulheres e crianças, alertam ativistas dos direitos humanos

As autoridades curdas fecharam, sem aviso prévio, uma instituição de apoio social que auxiliava mulheres e crianças da minoria Yazidi, vítimas de escravidão sexual às mãos do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).
O encerramento da Yazda, deixa mais de 1200 mulheres e crianças da minoria curda sem apoio material, psicológico ou social, alertam os funcionários da instituição e diversos defensores dos direitos humanos.
Mas não só. Milhares de outros refugiados Yazidi, um dos grupos minoritários mais vulneráveis da região, ficam abandonados à sua sorte, sem educação ou assistência médica.
Segundo o “Guardian”, o governo regional acusa a Yazda de ter cometido delitos como incentivar cidadãos Yazidi a deixar o Iraque, envolver-se em assuntos políticos e não ter renovado a sua licença - algo que a associação nega, tendo fornecido uma cópia de uma licença para operar válida até novembro de 2017.
Conta o jornal britânico que as forças de segurança locais irromperam pelas instalações da Yazda no dia 2 de janeiro, obrigando toda a gente a sair, antes de fecharem os portões dos escritórios. Todos os projetos em curso tiveram de ser encerrados, o que põe em risco nomeadamente um programa destinado a levar para o Canadá algumas das mulheres e meninas mais vulneráveis, garantindo-lhes proteção.
Fonte da associação diz estarem a ser desenvolvidos esforços junto do governo para ultrapassar as questões levantadas e possibilitar o regresso ao trabalho, ajudando os sobreviventes até aqui apoiados.
Os yazidis têm sido perseguidos ao longo dos milénios, vítimas de genocídios e do ódio, tanto de cristãos como de muçulmanos. Ameaçados de extermínio pelo Daesh, centenas de milhares foram expulsos das suas casas em 2014, quando os jiadistas invadiram a região de Sinjar. Milhares foram mortos, muitos enterrados em valas comuns, e estima-se que outros milhares tenham sido vendidos para escravidão sexual.
Em defesa da Yazda, a organização não governamental Human Rights Watch descreveu o apoio da instituição como “vital”, não só para aqueles que escaparam, como para os que vivem em cativeiro na vizinha Mossul, na esperança de serem libertados.

LORD KRONUS
LORD KRONUS
Admirador do Oculto e cinéfilo. azerate666@hotmail.com Confira mais textos deste autor clicando aqui