ROSA, conto por Natanael Gomes de Alencar, do e-book amazon Contos para Seres de Escurinho




ROSA

Rosa despe-se.
No espelho, as mãos em concha medem os seios.
Preocupada, não tem mais a certeza do amor pelo marido.
Com a mão, percorre as próprias reentrâncias.
Leva as mãos aos lábios. Sente leve odor malcheiroso.
O leito, seu grande circo.
Como acrobata, faz uma ponte humana, seu umbigo no ponto mais elevado, a vagina esticada, alongada, escorrendo o resto do esperma adrede recebido.
Ela está só e, sendo assim, sente-se no direito de exagerar todas as posições.
Fica de quatro, seus buracos contraem-se e dilatam, implorando o amor que explora profundidades.
Abre as pernas, bailarina experiente, as coxas potentes numa só linha.
Depois, leva as pernas ao pescoço, as nádegas desprotegidas e arrepiadas.
Um leve vento.
Retoma a verticalidade.
Pega a calcinha minúscula, coloca a prótese peniana e espera o marido, novamente.
O espelho aguarda, em volúpia, o que virá, suspirando, embaciado, um tremor sutil em sua moldura azul e rosa.

Feitiços de Carimbamba e Paixao de Rosabela, por Natanael Gomes de Alencar

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Que as mãos das musas gregas
Me guiem por esta história,
Dando clareza e auxílio
Para ao fim ter a vitória
Sobre um mito já escrito
Em coletiva memória.

Vou contar este enredo
De encanto e maravilha,
Envolvendo moça bela,
Jóia rara de família,
Rosabela - o nome dela,
Exemplo de boa filha.

Eram seus pais gente simples,
Viviam da plantação
Farta que no solo dava
Ou da parca criação
De bode e galinhas largas:
Sempre havia refeição.

Residia ali com eles
Tonha, avó de Rosabela,
Mãe de sua mãe querida;
Ninguém era como ela,
Naquela sabedoria
Que o além nos revela.

Desde os tempos do namoro,
Seu pai não rendia afeto
À sábia avó de Belinha,
Por ela ter dado o veto
Ao seu namoro e contato
Bem debaixo de seu teto.

Moravam num velho sítio
Em acomodado lar,
Herdado de antepassados
Chegados de outro lugar,
Que tinha se ressecado,
Indo o diabo lá morar.

Era essa arcaica terra
Mais verde há tempo atrás,
Até os anjos desciam
Com seus trajes divinais,
Enquanto nas verdes moitas
Faunos davam puns mortais.

Como um pedaço do Éden,
Lá caatinga não tinha,
Mas caju, cajá, mangaba,
Jaca, manga, era farinha,
Té macaxeira melada
Do pé nascia prontinha.

Reunia aquela herdade
Da Bahia ao Maranhão
Plantas em diversidade,
De frutos grande porção,
Animais de toda idade,
Tipo, grupo e condição.

Dava muito araçá:
Tinha o vermelho, o do-mato,
De-cora, pêra,da-praia,
Piranga, campo, e era fato
Que com cada tucumã
Brotava de coalho um prato.

De manhã o Jerimum
Com cuscuz e com buchada
Fazia Deus disfarçado
Comer um pouco de cada,
Terminando o desjejum
Com moqueca temperada.

A Iara, ali, pelada,
Dançava com curupiras,
E as lendas de terrores
Ali não eram mentiras,
Eram os trajes das musas
De entrecascas de embira.

Foi essa terra aprazível
Que aos olhos apresilha
O palco de uma estória
Onde a tragédia fervilha,
Envolvendo uma flor bela,
Noiva eterna de quadrilha.

Rosabela sempre foi
Por todos admirada,
Quanto mais ela crescia,
Mais bela era e educada,
Tão bela quanto Helena,
A rainha raptada.

Os rapazes da cidade
Não se pejavam de ir
À casa de Rosabela,
Para sua mão pedir,
Mas o coração da bela
Insistia em resistir.

O motivo já sabia
O seu pai, bem ressentido
Com a teima de sua filha
Em negar os bons partidos;
Sabia bem que era Quincas
Que ela ansiava pra marido.

Rosabela amava Quincas
Desde sua adolescência,
Mas o pai de Rosabela
Achava aquilo indecência
Por Quincas ter sangue índio
E morena aparência.

Como “Quincas, o Leão”
O povo lhe batizava,
Devido ter um domínio
Por sobre as feras mais bravas,
Nem a vida o punha em xeque,
Nem a morte o assombrava.

Em certa noite perdida,
Do céu um’ ave desceu,
Chamada de Carimbamba
Feiticeiro cananeu,
Castigado pelos Magos,
Citados por São Mateus.

O tempo foi decorrendo
E a ave a se acostumar,
Espiando às famílias
Que chegavam ao lugar,
Em particular, as moças
Florescendo para amar.

Durante os trezentos anos
Reinados naquele espaço,
Um milhão de moças tinham
Sumido sem deixar traço;
Carimbamba se fazia
A assombração do pedaço.

Desde que se fixou,
Fez sua fama vingar,
Cada moça que atraía
Ele fazia afogar
Em lagoa que tecia
No tear virgem de um mar.

Quando mirou Rosabela,
Estremeceu-lhe a lagoa
Desejou ter-lhe a beleza
E sua graça de pessoa,
Inflando o leque das asas
Como pavão por pavoa.

Triste, então, ele gritou,
Pois ficou réu do desejo,
Sem querer, se apaixonou,
Ficou a sonhar com beijos
Da bela flor que adorou
Ao vê-la naquele ensejo.

Era sempre meia-noite
Quando a ave aparecia,
Vinha junto da lagoa
Que na sombra ela tecia
Para apanhar Rosabela
Com idéia nada pia.

“Eu vou amanhã, eu vou..”
Carimbamba assim cantava,
Era assim que atraía
As moças que se jogavam
Na lagoa que afogou
Mais de mil moças escravas.

Certa noite, a lua cheia
Às feras deixava em cio,
Rosabela levitava
Do luar aos amavios,
Seus pais, muito preocupados,
Oravam, sem dar um pio.

Avançando bem a noite,
A agourenta  cantou;
Rosabela, incontida,
Ao feitiço se entregou,
Mas foi só quando dormiu
Que tudo descontrolou.

Sua vovó pressentiu
O feitiço da ave ruim
Que atraiu muitas mulheres
De sua família assim,
Por isso, seus pesadelos
Eram tormentos sem fim.

Ardente sonambulismo
Rosabela acometeu,
Dormindo, seguiu o canto,
Abriu a porta, se deu
À  Carimbamba, essa peste
Que em gaiola lhe prendeu.

Sorte que Quincas passeava
Por não conseguir dormir,
Viu o feio Carimbamba
E sua cara de tapir,
Tinha pé de pato e asas,
Que gostava de exibir.

O rapaz há pouco tempo
Lutara com Boitatá,
Derrotara a um Papa-Figo
Com o cabo de uma pá,
E de um calango grande
Fez pirão com mungunzá.

De lendas não tinha medo
Se causavam dor e morte,
Seu avô era um pajé
Que fizera reza forte
A que ao Mal não fraquejasse
E Tupã lhe desse norte.

Mas à lenda e sua lagoa
Não era fácil vencer,
Seu avô já lhe dissera
Que era do anoitecer
A força de Carimbamba,
E a razão dele viver.

Traçou um esperto plano,
Depois de muito pensar:
Se lhe dava força a noite,
Para com ele lutar
Só sob uma noite falsa
De um eclipse solar.

Esperou com paciência
E foi à casa dos pais
Da amada e consolou-os,
Sendo o ombro para os ais
Daquela boa família
Que perdera sua paz.

O pai dela, constrangido,
Pediu a Quincas perdão
Por tudo que fez com ele,
De ofensa e rejeição,
Ele aceitou com clemência
Por ser bom seu coração.

Prometeu ao pai da moça,
À avó e à mãe dela,
Lutar com toda destreza
Para soltar Rosabela
Das garras do Carimbamba,
Assombração requenguela.

Quando chegasse o eclipse,
Esperado com paciência,
Preparado o arco e flecha,
Usaria toda a ciência
Da tradição de seus pais
Com certeira consciência.

Foi pra casa descansar,
Seria dentro de um mês
O eclipse solar,
Ansiava pela vez
De fazer o mau chorar
Pelas vidas que desfez.

O tempo passou depressa,
Planejou a sua ação
E escondeu-se na mata
Aguçando a atenção,
Quando a lua intrometesse,
Flecharia o centro então.

O fenômeno se fez:
Entre a Terra e o Sol quente
A lua ficou de vez,
Quando a flecha do valente
Fez uma curva e prendeu
Aos três astros excelentes.

Quincas então provocou:
- Desça daí, ave frouxa,
Quero dar em tua cara,
Surrar-te como a um trouxa,
Rasgar a teu pé de pato
E comer a tua coxa!

- Que atrevimento tem!
Não devia ter falado,
Agora matar-lhe devo,
A isso sou obrigado,
Vá mostrando o seu pescoço,
Porque serei  seu machado!

Foi Carimbamba pra cima
De Quincas com manha insossa,
Mas pulou este sem medo
Pois seu amor era a moça
E à terra, ao sol, à lua,
Parara com flecha e força.

Carimbamba estranhou
Estar cheinho de dores,
Não estava como antes
Quando não tinha valores;
Com pena de matar Quincas?
De onde esses pudores?

Outro mergulho pra Quincas
Não poder se defender,
Mas o valente guerreiro
Lutava para valer,
Quando a ave mergulhou
Deu-lhe um soco de doer.

Carimbamba, em ricochete
Numa rocha explodiu,
Indo pra cima de Quincas;
Sem querer, a guarda abriu,
Deu-lhe um chute o valente
Que o outro caiu no rio.

Tinha de vencer o mal
Em menos de alguns segundos,
Pois a flecha derretia
E logo estaria o mundo
Trilhando o normal caminho,
Os limpos “versus”  imundos.

Aproveitando o momento
De Carimbamba pular,
Deu-lhe um caratê no ventre,
Causando dor de lascar
Na ave de mau agouro,
Que faleceu sem piscar.

Desapareceu a ave
Com sua lagoa insana,
As assombrações restantes
Tinham face mais humana,
As lendas que alimentavam
Eram doces de banana.

Rosabela ficou livre,
Marcaram o casamento,
Quincas gritou de feliz,
Pairou no ar com intento:
Rezou pros índios avós
E refez o seu momento.

A família recobrou
A alegria gloriosa,
Durante um mês festejou
Pela Rosa dadivosa,
Flor que deitava esperança
Àquela terra formosa.

Por ora paro o ofício
Desta história espalhar,
E o que disse a vocês
Para outros vou falar,
Se cheguei até aqui
Mais longe quero chegar.

AQUIESCEU por natanael gomes de alencar

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Riu-se ao discursar perante os hipócritas.
Aquiesceu e foi mal interpretado.
A hora soou distante. Guardou a cabeça.
Tirou os olhos dela e ela nem existia, mas lhe piscou.
Assim, enleado, não percebeu a própria vaidade.
Não havia senão formas de fora e nem deu por si.
A peça era um shopping vazio de idéias ausentes/presentes.
Há muita responsabilidade no concordar com os focos.
Sorriu para o público quando mal tinha uma boca.
A estória pedia que morresse. Não o fez

Porque sempre fugira ao fácil.

CAPÍTULO por natanael gomes de alencar




Resultado de imagem para mosca

O capítulo era imenso
e cheio de verdades inadmissíveis.

Seu arco acertava ouvidos
e dizimava tranquilidades.

Uma mosca guardava-o
por entre cordas acres.

Todos pediam clemência
quando capitulavam.

ESPERANÇA DE UMA FLORZINHA RUBRA por Natanael Gomes de Alencar

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- Peguei essa florzinha no lixo!
Lohana fazia um bico de choro que era uma beleza. Todas as amigas de sua mãe, conhecida como Dona Glê, gargalhavam do seu jeito bonitinho de iniciar o choro fazendo bico.
Mas a menina não gostava, guardava aquilo sentidamente. Uma vez, no Teatro Municipal, ia ter uma apresentação de teatro da Igreja O Amor Vence. No intervalo entre os dois atos, Dona Glê se levantou e gritou:
- Quem aqui quer ver o talento de minha filha?
- Para com isso, mãe. Eu não quero.
- Seja besta, menina. Faz o que eu mando. Vamo, vamo.
Arrastou sua filha pra cima do palco. E quando sua filha estava lá, bradou debaixo.
- Fica de frente, xixilenta!
Lohana ficou de frente.
- Levanta a cabeça!
Lohana levantou a cabeça.
Dona Glê ficou de pé. Olhou a platéia.
- Eu catei essa menina no lixo!
Era automático. Lohana fez o biquinho. Amaldiçoou a si mesma, o efeito foi o mesmo de sempre. Todos gargalharam. O teatro quase veio abaixo.
Passou a não gostar mais da companhia de sua mãe, que buscava sempre oportunidades de provocar-lhe o beicinho.
É que passou a crer naquilo como verdade. Porém, não se sentia agradecida por tal ato magnânimo. Por que sua mãe não a deixara no lixo? Já que era uma criatura-resto. Melhor do que ser humilhada. Certo que a tirou do lixo, a vestiu, alimentou, por um tempo fingiu até que amou-a.
Dona Glê era uma mulher exibida, desbocada. Seu marido vivia deitado, vítima do alcoolismo e da diabete. Não falava mais coisa com coisa. E desforrava o seu sofrimento nos frágeis seres que estavam mais próximos. A filha era uma delas. De início, não notara. Mas depois que as amigas deram vazão a gargalhadas homéricas, Dona Glê se sentiu correspondida, e passou a repetir a brincadeira onde desse. Era só falar a palavra lixo que, automaticamente, Lohana fazia o bico mais provocador do mundo.
Seu avô, ao contrário da filha, achava Lohana uma criatura palaciana. Uma princesa de alabastro, com um sorriso de ouro. E também divulgava essa qualidade principesca pra todos quanto podia. Mas efeito maior fizera sobre Lohana o terror que sua mãe implantara. Além do mais, seu avô morava em outro estado. A força de seu elogio era fraca.
Teve uma ideia: pegaria todas as flores dos 7 vasos que sua mãe cuidadosamente separara numa prateleira da área de serviço, amassaria com cera quente durante bastante tempo. Quando achasse que estava no ponto, derramaria a maçaroca nos próprios ouvidos. Assim o fez. E o que foi incrível foi ela não ter manifestado um nadinha de voz. As lágrimas desciam pelas maçãs do rosto, porém. Agora sua mãe poderia dizer o que quisesse. Ela não faria mais beicinhos e as colegas e vizinhas de sua progenitora não ririam mais.
Sem entender por que, Lohana tinha esperança de que sua alma se transformasse num belo parque ajardinado, com flores rubras por todo o entorno.