CAPÍTULO por natanael gomes de alencar




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O capítulo era imenso
e cheio de verdades inadmissíveis.

Seu arco acertava ouvidos
e dizimava tranquilidades.

Uma mosca guardava-o
por entre cordas acres.

Todos pediam clemência
quando capitulavam.

ESPERANÇA DE UMA FLORZINHA RUBRA por Natanael Gomes de Alencar

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- Peguei essa florzinha no lixo!
Lohana fazia um bico de choro que era uma beleza. Todas as amigas de sua mãe, conhecida como Dona Glê, gargalhavam do seu jeito bonitinho de iniciar o choro fazendo bico.
Mas a menina não gostava, guardava aquilo sentidamente. Uma vez, no Teatro Municipal, ia ter uma apresentação de teatro da Igreja O Amor Vence. No intervalo entre os dois atos, Dona Glê se levantou e gritou:
- Quem aqui quer ver o talento de minha filha?
- Para com isso, mãe. Eu não quero.
- Seja besta, menina. Faz o que eu mando. Vamo, vamo.
Arrastou sua filha pra cima do palco. E quando sua filha estava lá, bradou debaixo.
- Fica de frente, xixilenta!
Lohana ficou de frente.
- Levanta a cabeça!
Lohana levantou a cabeça.
Dona Glê ficou de pé. Olhou a platéia.
- Eu catei essa menina no lixo!
Era automático. Lohana fez o biquinho. Amaldiçoou a si mesma, o efeito foi o mesmo de sempre. Todos gargalharam. O teatro quase veio abaixo.
Passou a não gostar mais da companhia de sua mãe, que buscava sempre oportunidades de provocar-lhe o beicinho.
É que passou a crer naquilo como verdade. Porém, não se sentia agradecida por tal ato magnânimo. Por que sua mãe não a deixara no lixo? Já que era uma criatura-resto. Melhor do que ser humilhada. Certo que a tirou do lixo, a vestiu, alimentou, por um tempo fingiu até que amou-a.
Dona Glê era uma mulher exibida, desbocada. Seu marido vivia deitado, vítima do alcoolismo e da diabete. Não falava mais coisa com coisa. E desforrava o seu sofrimento nos frágeis seres que estavam mais próximos. A filha era uma delas. De início, não notara. Mas depois que as amigas deram vazão a gargalhadas homéricas, Dona Glê se sentiu correspondida, e passou a repetir a brincadeira onde desse. Era só falar a palavra lixo que, automaticamente, Lohana fazia o bico mais provocador do mundo.
Seu avô, ao contrário da filha, achava Lohana uma criatura palaciana. Uma princesa de alabastro, com um sorriso de ouro. E também divulgava essa qualidade principesca pra todos quanto podia. Mas efeito maior fizera sobre Lohana o terror que sua mãe implantara. Além do mais, seu avô morava em outro estado. A força de seu elogio era fraca.
Teve uma ideia: pegaria todas as flores dos 7 vasos que sua mãe cuidadosamente separara numa prateleira da área de serviço, amassaria com cera quente durante bastante tempo. Quando achasse que estava no ponto, derramaria a maçaroca nos próprios ouvidos. Assim o fez. E o que foi incrível foi ela não ter manifestado um nadinha de voz. As lágrimas desciam pelas maçãs do rosto, porém. Agora sua mãe poderia dizer o que quisesse. Ela não faria mais beicinhos e as colegas e vizinhas de sua progenitora não ririam mais.
Sem entender por que, Lohana tinha esperança de que sua alma se transformasse num belo parque ajardinado, com flores rubras por todo o entorno.

A VINGANÇA (II VERSÃO) por Natanael Gomes de Alencar

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...Ela amava de uma maneira diversa. Fora levada a isso desde a primeira linha do conto que começava assim:
...Ele amava também de uma maneira diferente. Como ela e ele poderiam encontrar outra maneira que não fosse essa, diferente? Chamavam-nos desde a mais tenra infância de bizarros. Se confortavam naquela canção da Pitty que dizia...como é mesmo: seja você mesmo que seja bizarro. Tirar a máscara do rosto. Dar vazão à ousadia da corda.

...O criador do conto, um egocêntrico, determinou isso. Eles tinham de cumprir a diferença.
...Em cima da corda esticada entre seu prédio e o prédio dele, ela e ele fariam a travessia quantas vezes fossem necessárias. Pois se amavam, e assim era determinado desde a primeira linha pelo maníaco de escrita torta.
...Ela pensara em desistir no início. Qual ele. Mas lhes disseram que seus caminhos bizarros só permitiam a coragem. Desafiado por ela, ele deslizou na corda bamba em cima de uma canção do Nirvana.
...Enfim, através da sábia escolha do toque de batera, ele conseguiu dela um sorrisinho malicioso como um vestido curtinho....que ela não usava, mas, ele tinha imaginação muito puritana, que não permitia despi-la, porém concedia que a visse de saia curtinha.
...Todos lá embaixo olhavam para aquele amor azul como um infinito de mar, sinal de que Deus existia entre dois relevos, entre dois argumentos paralelos, entre duas rombudas dúvidas, entre dois significantes tatuados: numa banda o Alfa, noutra abundando o Ômega.

...Quando ambos estavam na corda bamba indo um em direção ao outro, tudo o mais não importava. Era tudo tão desesperado e romântico, que nem Shakespeare nem tampouco todos os escritores e escritoras eróticos abarcariam.
...Eram delirantes. Cheiravam o pó das alturas, agora. Cansados do acordar seis horas, almoçar meia hora, estressar, voltar. O Vampiro proclamara um novo país, imerso nas sombras da insegurança, reformando o modo de viver. Não se trabalhava mais com alegria.
...Ambos os amantes chutaram tudo para o alto. E tinham intenção de morrer na corda bamba entre os dois, quando notaram que não tinham liberdade. O autor não lhes permitiu a liberdade. Mesmo se finassem por razões sentimentais, não seria devido a eles mesmos. O tirano autor era também uma espécie de vampiro, pois, atingido pelo Drácula da Alvorada, com suas reformas de morte, buscou se vingar colocando seus personagens à beira da morte.
...Todavia, ele também seguia as linhas de um outro autor, e este de um outro, até o infinito, onde se pensava existir uma inversão explosiva inicial, em que uma Criatura Autora Mãe seria a criadora do Primeiro Autor Criador.
...Então, os amantes realizaram a sua vingança, entrando em combustão, através de faíscas de amor, queimando, assim, o livro que recheava sua história.

CHAVE DE CADEIA 2 por natanael gomes de alencar

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Vê se baixa essa beretta,
por favor não se intrometa,
porque minha alma é livre
como a cauda de um cometa,
coisa inteira, coisa meia,
que é vazante e maré-cheia,
seja sangue ou seja a veia,
só se aproxime disposta
a ser chave de cadeia.

Vê se baixa essa beretta,
por favor vem, se intrometa,
porque minha alma é frágil
como bala de espoleta,
se eu morrer no fim do morro
pode crer que é coisa feita,
que é vingança de mulher
por excesso de "buceta",
ou traição de amigo
por despeito ou por falseta.

Vê se escreve na prancheta,
por favor me livre a treta,
porque tenho muita fé
no amor por ti - "beretta" -,
e se te beijo te como
com pimenta malagueta,
mas antes eu te mastigo
no bar de Dona Capeta.
Só se aproxime disposta
a matar-me a mamiletas.

RASGA MORTALHA inspirado em O CORVO por natanael gomes de alencar

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...  RASGA-MORTALHA inspirado em O CORVO
...Meia-noite? Tava louco co’ esse horário de verão.
Folheava um livro raro, letra barroca e fininha.
Meu corpo arruinado debruçava sobre a mesa.
“Ouvi o som do interfone?” Estiquei-me. Dor na espinha.
“Quem toca meu interfone, causando uma dor na espinha?
...Nada demais. Nonadinha.”

Foi no início de setembro. Meu aniversário, eu lembro.
Não paguei a luz. Velavam sombras várias na cozinha.
Queria o raiar do dia. Esta noite me soprava
- A leitura n’ ajudava – o nome de Amelinha
Q’ hoje ancora no impossível da memória...Amelinha !!!
Nada mais resta. Nadinha.

A cortina na vidraça balançava, para horror
Desta arritmia herdada, que ao peito roxo abespinha.
Ouço de novo o interfone por vagarosos segundos...
“É uma cliente atrasada??? A coroa e boa Zinha
Que gosta de rima à noite ??? Ela é uma vizinha
Afetiva e mais nadinha...”

Fiquei bem mais animado, passei a chave na porta :
“ 'Sinhó'...quer dizer, Madame, não repare a camisinha.
Estava morto de sono, e o interfone está tão tênue.
Extenuado, tonto, tenso, estava eu inda agorinha”.
Quando escancarei a porta  : toda a rua em breu, todinha !
Nada mais. Juro. Nadinha.

E tremeu-me o coração em descompasso acelerado :
“ Mas que breu tão pavoroso, de um vazio que sublinha
Espantos de dar artrose em pontes anoitecidas. ”
Grito no instante, alterado, o nome de Amelinha,
A minha voz ri sozinha. Nada do eco de Amelinha...
Não mais seu som! Mais nunquinha!


Logo ao reentrar em casa, co’a alma em prantos, a vidraça...
Vem um som mais forte, e outro, e caem minhas glicínias.
“Terei de ver de perto se há vidro solto ou velho encaixe.
Passar tempo neste intento é meta que me encaminha.
...Acho que é o vento que balança o vidro. M(eu), calminha.
Mais que isso não. Nadinha.”

Abro a vidraça e bem presto uma ave entra, esvoaça.
Suas asas derrubam tudo. Voam diversas peninhas.
Deve ter milhões de anos... “Caralho, a Rasga-Mortalha !”
Pousa de frente a meu quarto, num varal feito de linha.
E bem defronte da porta, numa linha bem retinha.
Temor causou-me? Na...aaaaiiiiii...di...nha...

Falei à Rasga-Mortalha com falsa voz de barítono:
“Embora você precise ser mais suave, corujinha,
E ter mais educação ao entrar no oco dos lares,
Me atrevo a interrogar-lhe, ó ave de ignomínia:
Que nome lhe dá o Inferno? (Suindara é na terrinha).”
- “Nunca mais.” E mais nadinha.

Quedei-me, boquiaberto, de ouvi-la falar de perto,
Matutei o horror incrível que lhe notei na falinha...
Escolheu a minha porta, pendurou-se em meu cordão...
E se eu quiser divulgar, dirão que bebi da vinha
De Baco diretamente, dirão que bebi da vinha...
Nunca mais bebo...ic...nadinha.

Encarei Suindara, esperei, ressonei, surtei e nada.
Deu àquele Nunca Mais o conteúdo que tinha.
Depois ficou lá, calada, nem balançou suas penas.
Disse a ela, em meu pensar: “sei que dessa porta minha
Partirá, qual sonho, amigos, fugidos da porta minha.”
“ - Nunca Mais!” – disse. " - Nunquinha."

Onde qu’aprendeu tal frase? Foi o pai que lhe ensinou ?
Deve tê-la ensinado muito agouro e formulinhas.
Não só de rasgar mortalha seu agouro se apresenta?
Deu-lhe seu papai irado bruxarias comezinhas,
Mas sua frase sem piedade não é arte comezinha...
Nunca mais nada é nadinha.

Encostei - me na poltrona de corino quebradiço,
E pensei sobre a razão do agouro dessa mesquinha,
Que fazia uivar caveiras de pavores renascidos.
Não me rasgou a mortalha, do alto dessa cordinha,
Mas me agourou som cortante sem sequer dar talhadinha.
“Nunca mais” - disse. E nadinha.

Revi o drama de Suindara quando vivia entre nós:
Amava o filho de um Conde, mas não amava sozinha.
Incestuosa, insana e sonsa, a esposa má desse Conde
Mandou matar Suindara, de Eliel bela filhinha.
Eliel, famoso bruxo que adorava sua Darinha...
Nunca mais amou nadinha.

Com estátua de coruja enfeitaram a sua cripta
Pois além de carpideira do povo era “fessorinha”.
Eliel fez um feitiço, quando da assassina soube.
À filha tornou coruja, com fúria qual das Eríneas,
Deu à Condessa mortalha, com a fúria das Eríneas...
Mais nada, nada, nadinha.

Depois disso, quanta morte anunciou neste mundão.
"Terá cansado de voar por toda a parte a carpinha?
Qual a razão pra aqui parar com seu olhar inflamado?
Será só para lembrar de eu nunca mais ver Amelinha,
Porque agora não terei mais sua boca molhadinha...
Nunca mais o amor ! Nadinha ! "
Senti em dantesca treva o premir de ossudo abraço,
A casa foi s’encolhendo, qual timorata rolinha,
Então, bradei:“Rasga – Mortalha, me joga logo no inferno !!!
Vejo ainda a morte cruenta de minha casta Amelinha;
Esquecerei o ataúde co’ corpo de Amelinha ?”
- “ Nunca mais” – disse. E nadinha...

“Ó enfeitiçada ave perdida, haverá um lenitivo
Que possa me ajudar? Responda-me, infame adivinha !
Tira-me as manchas de sangue, ó voz doida de chacrinha !
Pode mudar-me, a que eu saia desta casa esterquilínia,
Onde ensandeci de medo minha de ébano deusinha?”
Disse: - “ Nunca Mais. Nunquinha.”

“Poderei desenterrá-la co’ estas mãos impenitentes,
Pegar seu corpo, e pintá-lo como a de Poe Virgínia,
Pôr no instagram, twitter, face, que simula pra uns a vida,
E depois impulsionar o seu caixão frente à pracinha ?
Quanta vez nós lá rolamos, debaixo da palmeirinh... ”
- “ Nunquinha” – atalhou. “ Nunquinha”.

“Parta, agora, peste, diaba, deixe-me quieta a mortalha;
Tava bem feliz jogado neste sem suas garrinhas
Presas nesta frágil alma, fio de arremedo que encorpo.
Tire as garras desta vida, cuja sina jaz sozinha !
Saia já, bestial, e logo, pra esquecidos fins de linha !”
- " Nunca nonada mais, nadinha”.

A ave não fez mais gesto. Suas garras ainda espremem
O meu ser que é só tumulto. Penso imagens bem sanguíneas.
...Eis outra vez o interfone num contínuo tocar.
Mas resto paralisado, colado na poltroninha.
"...Sumirá acaso o sangue que esparramei de Amelinha?”
- “ Nunca mais” – falou. “ Nunquinha.”